domingo, 3 de maio de 2009

Atração fatal

Não tem como escapar. Se não aconteceu ainda, espere. Em algum momento da sua vida, você será arrastado por uma força maior que vai fazer você sair do caminho, desvirtuar convicções, mudar conceitos. Não, não se trata de nenhum fenômeno metafísico, mas, sim, de uma característica inerente a alguns homens e mulheres. Tal qualidade – ou defeito, depende do ponto de vista – atende pelo nome de sedução. Mais do que o apelo sexual ao qual foi atrelado, o verbo seduzir tem mil utilidades. Leva incautas donas-de-casa a comprar absurdos só porque não resistiram ao fascínio de um vendedor. Faz com que multidões sigam, encantadas, as idéias de certos políticos. E, mesmo em casa, alguns pais conseguem lançar mão deste recurso para fazer com que os filhos acreditem nas suas idéias. O ato de seduzir é, portanto, o combustível que azeita a sociedade.

A etimologia da palavra é latina. Vem de seducere. Sed significa separar, afastar, privar e ducere, levar, guiar, atrair. Seduzir, portanto, seria o processo pelo qual se atrai para privar o outro de sua autonomia. Por isso, os grandes sedutores – que não raro se tornam líderes – encantam o interlocutor e convencem multidões. O mestre Antônio Houaiss registra outra versão no verbete: “conjunto de qualidades que despertam simpatia, desejo, amor, interesse; magnetismo, fascínio”. Até por isso, a idéia está tão vinculada à conquista sexual e ao estímulo erótico.

Para se iniciar nessa arte é preciso, no entanto, dissecar esse processo e seus artífices. O professor de português Lucas Sanches Oda realizou uma pesquisa na Universidade de Campinas (Unicamp), na qual analisou o discurso do sedutor do século XII ao XXI. Ele conta que o papo de um conquistador atual tem os mesmos pontos básicos utilizados pelos cavaleiros medievais para cortejar suas damas. Ou seja, nos textos poéticos criados pelos nobres e cavaleiros ou nos encomendados aos trovadores está presente o elogio às características físicas e morais do seduzido e a exaltação, mesmo que velada, das qualidades do sedutor. “O discurso da conquista agora é muito variado porque coexistem elementos de todas as épocas, mas essas bases não mudam. A diferença é que antes se colocava em evidência a castidade e a beleza na mulher e a honra e a coragem no homem. Hoje, valorizam-se os bens materiais e as medidas corporais”, analisa ele. Até o que ele chama de “modéstia afetada” continua existindo: “Enquanto um cavaleiro dizia que nem mesmo se ele combatesse centenas de não-cristãos se igualaria à pureza da dama, atualmente dizemos, numa cantada popular, que fulana é muita areia para o nosso caminhãozinho. É um jeito de se diminuir para exaltar. No fundo, quem corteja não pensa assim, senão não abordaria a menina”, completa.

Texto: Istoé Online

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